Considerações sobre os cenários do ensino no futuro
Por S.Squirra
Aos pesquisadores maduros é plenamente possível constatar as enormes transformações por que passaram a academia e o ensino com um todo nas últimas décadas[1]. A partir disto, é necessário dar uma olhada no futuro. Tempos atrás, a melhor pedagogia era restrita aos livros e cadernos e o acesso ao conhecimento “maior” era difícil e, sobretudo, muitas vezes, inexistente. Na época do mundo analógico, e mesmo nas capitais, quando o conhecimento consolidado estava restrito às raras bibliotecas que disponibilizavam hermeticamente seu precioso acervo, o conhecimento só era alcançado a partir da presença física do pesquisador, requerendo tempo expressivo deste para as colheitas desejadas. Pouco mais de 15 anos atrás a chegada do mundo digital e em tempo real rompeu com esta imobilidade e escancarou, a todos os interessados, as fontes do conhecimento em todas suas formas e sistemas. Esta transformação foi radical e primeiramente atingiu em cheio as universidades do primeiro mundo, mas chegará rapidamente ao terceiro, segundo e primeiro níveis de todo o globo.
Na Sociedade do Conhecimento o ensino está sofrendo grandes choques e, por isto, a escola deve estar atenta à inovação, uma vez que novos paradigmas estão definindo e delineando os modelos pedagógico-estruturais da comunicação e, por tabela, da formação superior em toda parte. A evolução tecnológica, que disponibiliza um infindável leque de possibilidades de comunicação online –agora, substancialmente móvel- (no princípio do anytime, anywhere, anyhow), se viabiliza através dos incríveis, dinâmicos, plurais e interativos recursos da comunicação digital que denotam uma realidade humana individual irrecusável e, conseqüentemente, acenam para a necessidade de uma diferenciada reformatação dos modelos e práticas para o ensino superior. Os pressupostos do mundo digital indicam que a sobrevivência futura dependerá de aceitar isto na sua totalidade e investir corajosamente nesta direção. Na área acadêmica, um exemplo robusto é o do MIT, que desde setembro de 2003 disponibiliza abertamente os conteúdos de todas suas disciplinas através do MIT OCW (MIT OpenCourseWare). Estão ali disponíveis os programas, os textos, animações, vídeos, áudios, incluindo todas as conferências feitas por seus pesquisadores[2]. O princípio é o da pedagogia colaborativa, no melhor modelo das práticas descritas no livro Wikinomics de Don Tapscott.
Para sobreviver no futuro, é necessário rever o conceito de estruturação dos componentes gerenciais das universidades, pois o ensino e conhecimento responsável deve se tornar multidisciplinar e multicultural, como diz Mark C. Taylor[3]. No mundo digital, os mecanismos de oferta de caminhos sobre todo tipo de informação sofisticaram-se a partir da consolidação dos aplicativos digitais como os mecanismos de procura do conhecimento. Nos últimos tempos, além do Google, percebeu-se a chegada de um mecanismo singular e que integra os conceitos de busca “inteligente”, num modelo referencial diferenciado. Trata-se do WolfranAlpha, mecanismo de procura que introduz o conceito de rede semântica[4], alicerçando-se na oferta de informações relevantes para o domínio e aprendizado. Nestas, e nas vindouras conformações digitais, seguramente estarão residentes as novas formas de acesso e domínio do conhecimento, alterando sobremaneira a hegemonia das universidades na oferta de conteúdos. Afirma-se que, no futuro, todos aprenderão tudo, em todo lugar, com todos, sem tempo preciso (sentido real de life-long learning). É preciso refletir sobre isto.
Neste cenário, o surgimento das redes sociais inseriu nas relações humanas novas formas de relacionamento, entretenimento e produtividade e as dinâmicas que daí emergem revelam que novas formas de diálogo e aprendizagem aninham-se nestes mecanismos de interação e trocas. Isso pode dizer alguma coisa para as universidades. A inovação recebe o foco quando o economista austríaco Joseph Schumpeter preconiza que a “substituição das formas antigas por formas novas de produzir e consumir” e onde processos inovadores, corajosos, audaciosos, e centrados na inovação sejam possíveis a partir de uma “destruição criativa” dos modelos anteriores, evitando o que ele definiu como sistemas que garantem a estabilidade do status atual dos trabalhadores e que recusam a inovação. As instituições de ensino são lugares sólidos para a manutenção dos territórios conquistados e do império dos “grupos de poder”.
Por seu lado, a atual estrutura das redes sociais indica que a coletividade prefere e assina formas particulares de contato, onde trocas de imagens, de informação e de impressões tornam-se possíveis, amigáveis e dinamizadas[5]. Aponto que neste cenário digital de alta freqüência aninha-se o novo estudante, aquele ser que, em poucos anos, assumirá os postos diretivos disponibilizados pelo mercado e que ocupará os espaços de liderança nos cargos de docência e na pesquisa. Este é, definitivamente, um novo homem, um profissional credenciado de outra forma. Nesse sentido, uma constatação se evidencia: se o conhecimento está fácil e sedutoramente disponível a todos, em volume aterrador, nas pontas dos dedos, qual é mesmo o papel da escola “tradicional”, justamente aquela que ainda é hegemônica e que preconiza a rendição do discente a quatro anos de freqüência –e pagamento- de cursos em salas presenciais (com altos investimentos em deslocamento, reserva de horas, trânsito, custos outros etc) e compostas por várias dezenas de estudantes? Será que isto vai se manter no novo paradigma de acesso ao conhecimento e interações de toda ordem? Ou será que às escolas, como as conhecemos hoje, restará a elementar tarefa de realizar exames “de ordem” para a comprovação de domínio do conhecimento de alunos oriundos de amplo leque de formação (também oferecido por ela), a partir do acompanhamento dos programas online abertos a todos? A esta instituição restará unicamente a função de aplicar exames específicos e conferir os diploma que certamente continuarão a ser exigidos? Esta é uma questão que nos afeta hoje e merece atenção, pois o ensino da Medicina, Biologia etc. e a Neuroinformática já permitem a simulação de experimentos (em plataformas digitais) sem que seja necessário realizá-los na prática, unindo, em tempo real, pesquisadores de várias nações, sem que estes tenham que sair dos seus laboratórios, no melhor modelo das ciências cognitivas de ponta. O EAD já é uma realidade e sinaliza a mudança irrecusável de modelo pedagógico. O recurso se consolida justamente no momento onde os agrupamentos passaram a se dar de outra forma: o site de relacionamentos Facebook[6] tem inscritos mais de 350 milhões de usuários, que postam 55 milhões de atualizações por dia e compartilham mais de 3,5 bilhões de arquivos entre si a cada semana[7]. Por que não uma rede social alimentada por uma universidade? Por que não ela própria se tornar uma rede social, indo na direção do que foi cunhado como Empreendimento 2.0?
Para concluir, realço as inebriantes possibilidades da interação inter-humanos no processo ensino-aprendizagem em que sedimento esta reflexão, fato só permitido pelas tecnologias da comunicação mediadas pelas máquinas digitais do mundo atual. Não é responsável pensar o presente, muito menos o futuro sem elas em todos os segmentos das atividades humanas. Lembro que a almejada troca docente-discente nunca se materializou no mundo analógico, na educação tradicional. E, do seu lado, a interatividade é plenamente viável no mundo digital, dada a extraordinária evolução dos recursos digitais e dos knowbots, que praticamente introduzem a web cognitiva via interpretação dos desejos humanos a partir dos seus comportamentos na rede. Quer dizer, em algum momento próximo, a educação vai ter que migrar definitivamente para os cenários digitais da comunicação como hoje se estruturam as redes tecno-sociais que fazem muito sucesso e são tão familiares a tantos. Quem sair na frente terá lugar garantido.
[1] O EAD é o melhor exemplo.
[2] Ver em: http://ocw.mit.edu/OcwWeb/web/courses/courses/index.htm, alguns disponíveis em http://www.universia.net/mit
[3] O Estado de S.Paulo, 03.05.2009, Vida& , p. A27
[4] http://www.wolframalpha.com/index.html
[5] O Livemocha e Busuu são ótimas escolhas gratuitas para aprender línguas estrangeiras, cujo maior estímulo é a flexibilidade de horário.
[6] O site mais visitado, superando o Google, conforme Folha de S.Paulo/Dinheiro de 17.03.2010, p.B1
[7] The Economist/Carta Capital, 17.02.2010, p. 26

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